Recuperação cautelosa após avalanche

O aquecedor para o mercado de carnes, mesmo que na potência mínima, veio nos meses de agosto e setembro, quando o preço da arroba do boi gordo teve uma alta significativa

Desde o final de 2016, com a desvalorização do real, o pecuarista brasileiro tem fugido de uma avalanche de problemas. Duas operações da Polícia Federal (Carne Fraca e Carne Fria), delações de executivos da maior processadora de carnes do mundo, a JBS, e até embargos de exportação da carne brasileira, neste ano, impulsionaram o setor montanha abaixo. Resultado: ânimo do pecuarista congelado.

O aquecedor, mesmo que na potência mínima, veio nos meses de agosto e setembro, quando o preço da arroba do boi gordo teve uma alta significativa na maioria das praças de comercialização do País. Em Goiás, setembro marcou o melhor valor do ano: R$ 135,44, ultrapassando os patamares que eram registrados no mercado físico antes da delação da JBS. E o motor desse cenário foi a oferta restrita, aliada as exportações significativas. “No momento da decisão para o confinamento, que é entre maio e julho, o cenário para o pecuarista era muito ruim, devido à série de fatores relacionados a JBS. Poucos produtores se convenceram a confinar os animais, porque não queriam entrar no vermelho. Por isso, o cenário hoje é de oferta limitada, o que gera essa fase ‘madura’, de movimento de recuperação de preços”, explica o consultor de mercado Rodrigo Albuquerque, que acredita na estabilização dos preços, caso o setor não tenha novas surpresas. “A indústria vai pressionar, mas acredito que os valores se mantenham firmes e o mercado estabilizado até outubro”, diz.

A chegada – entre outubro e novembro – do segundo giro de animais confinados dará corpo a oferta, de acordo com a analista técnica da Faeg para a área de Pecuária de Corte, Christiane Rossi. “Com o valor da arroba mais atrativo nesse segundo semestre, alguns produtores se interessaram pelo confinamento, então há uma expectativa de que nos próximos meses a oferta seja acentuada, mas não dá para prever ainda como estarão os preços”. A recomendação dela é avaliar custo de produção, verificar se o mercado está firme e comercializar para fazer margem para cima.

Da porteira para dentro

Nesse sobe e desce nos valores no mercado físico, pecuaristas têm adotado estratégias para recuperar a rentabilidade perdida nos últimos meses e fazer frente a gastos correntes e a compromissos. Fábio Tadeu Bueno Brandão, que faz cria, recria e engorda e hoje conta com 9 mil cabeças em São Miguel do Araguaia (GO), focou na venda a conta gotas e na distribuição para fornecedores que pagam à vista, visando minimizar os riscos. “Vamos continuar vendendo lotes pequenos, sempre procurando fazer uma média, porque ninguém acerta preço máximo. Nós esperamos receber um lote para vender outro, sempre buscando, pelo menos, empatar custo e valor de venda e não ficar refém de exportação”, disse, frisando a importância de se ter boi pronto para o abate o ano inteiro. “Para nós, está dando certo estar no mercado”, ressalta.

A pecuarista Yula Cristina Gomes Cadete, de Rio Pardo, no Mato Grosso do Sul, tem trabalhado com mais de um frigorífico e definido escalas de abate, que já chegam a 50% dos animais confinados. Ela também aposta nas ferramentas de garantia de precificação do boi gordo como a trava dos preços no mercado futuro, dispensando preocupação com as oscilações de preços nesse período. “Temos feito operações em Non-Deliverable Foward (NDF) e buscado uma parte de contratos a termo para novembro e dezembro. No curto prazo temos que trabalhar com travas e defesas, reduzir custos de produção, garantir margem e focar na produtividade, porque o cenário é muito incerto. A pecuária é um setor com prosperidade, com boas chances de crescimento e acredito que a situação voltará a seus patamares normais no próximo ano”, reforça.

Mercado interno 

Além do turbilhão de problemas, que ainda emitem algum resquício na pecuária brasileira, o consumo interno, que corresponde a 80% da carne produzida no País, continua em queda. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) o consumo da carne bovina recuou 3,7% nos últimos 12 meses, resultando em 32,5 quilos por habitante/ano.

Esse recuo está mais ligado a conjuntura econômica do que aos fatores políticos que balançaram o setor pecuário neste ano, como explica o economista Edilson Aguiais. “Esse cenário econômico vem de dois anos de recessão, com a população perdendo emprego, diminuindo poder de compra, aumentando a dificuldade de acessar o produto, inflação, entre outros fatores. Faz parte da cultura do brasileiro comer carne, mas atualmente ele está optando pela mais barata”, explica.

Ele vislumbra uma recuperação no consumo na medida em que a economia registre reação. “A economia não está pujante. Ela parou de piorar e dá sinais de possível recuperação. Acredito que só teremos plena recuperação no final de 2018”, diz Edilson. “A febre cedeu, mas o paciente ainda está convalescente”, complementa Rodrigo.

No mercado das carnes há cinco anos, a loja Beef Bistrô, em Goiânia, sentiu os resquícios da avalanche, mas nada que fizesse o alarme soar. “O cliente que fazia quatro churrascos por mês, passou a fazer dois. Percebemos que mesmo com o cenário ruim, os clientes não deixaram de consumir”, explica a gerente do estabelecimento, Isadora Junqueira.

Ela atribui essa atitude do consumidor à qualidade do produto ofertado e as inovações oferecidas dentro da loja.

Fernando Dantas via O Hoje

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