Alta do real pode frustrar expectativa de melhora na economia daqui em diante
Há riscos de recaída caso a equipe econômica interina persista em sua política de (re)valorização do real diante do dólar

Os números apresentados pela atividade econômica no segundo trimestre têm permitido interpretações divergentes em relação ao momento atual atravessado pela economia, mas reforçam a perspectiva de uma estagnação, com riscos de recaída mais adiante caso a equipe econômica interina persista em sua política de (re)valorização do real diante do dólar. A desvalorização da moeda brasileira vinha impulsionando os volumes embarcados pelo setor manufatureiro, ajudando a injetar algum ânimo nesta área. A confirmação de um novo ciclo de queda do dólar, como parece ser a opção da nova equipe, pode frustrar a perspectiva de melhora para a economia nos próximos meses.

De uma forma ou de outra, os dados mais recentes misturam boas e más notícias, na visão de Igor Velecico, economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Brasdesco, sugerindo, de um lado, que o “fundo do poço” (da atividade econômica) teria ficado para trás, mas indicando, num viés mais negativo, que uma ligeira piora no comportamento da economia no acumulado entre abril e junho.

Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), “mês de maio não trouxe bons resultados para nenhum dos grandes setores da economia”, apontando que ainda é muito cedo para se falar em uma recuperação. “O momento pelo qual a economia passa ainda é bastante delicado e novas rodadas de deterioração não estão descartadas, se não em todos talvez em alguns setores”, reforça o instituto.

Na análise de Velecico, indicadores “mais cíclicos” parecem sugerir uma leitura mais animadora, a exemplo das pesquisas que medem a confiança da indústria, dados sobre importação e produção de bens de capital, evolução dos emplacamentos de veículos e, não menos relevante, a geração de empregos no mercado formal de trabalho.

Ainda conforme o economista do Depec, o número de veículos emplacados manteve-se nos mesmos níveis ao longo dos seis meses do primeiro semestre, enquanto dados preliminares apontam avanço de 5% em julho na comparação com o mês imediatamente anterior. “O mesmo vale para a importação de bens intermediários, estáveis desde agosto do ano passado, e que começaram a apresentar uma tendência altista nos últimos três meses”, reforça Velecico em relatório recentemente divulgado pelo banco.

Menos demissões

No mercado de trabalho formal, prossegue ele, registra-se “redução sensível do número de demissões”, tendência que pode “se intensificar ao longo dos próximos meses”. No início do ano, os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) permitiam projetar uma elevação de cinco pontos percentuais na taxa de desemprego ao longo dos 12 meses seguintes. “Os dados de maio mostram que esse indicador já desacelerou para algo próximo a 3%, e esperamosinclusive que diminua para próximo de 1% no segundo semestre”, adianta Velecico.

Balanço

Aliás, Velecico considera que o ajuste no mercado de trabalho “tem sido mais saudável do ponto de vista macroeconômico”, o que poderá levar as empresas a reduzirem o ritmo das demissões.

A razão entre os salários dos admitidos e dos desligados atingiu o menor nível desde 2009, quando representava 86,9% (ou seja, os salários dos empregados “recontratados” eram então 13,1% mais baixos do que os pagos aos funcionários demitidos).

O indicador permite duas leituras não necessariamente excludentes. Numa primeira hipótese, aventada por Velecico, pode estar ocorrendo uma troca de empregados mais qualificados por mão de obra menos preparada (“ou mais dispendiosa por menos dispendiosa”, complementa ele).

Outra possibilidade, que não exclui a primeira, é que os trabalhadores, diante das pressões exercidas pelo desemprego elevado, passaram a aceitar salários mais baixos para conseguir nova colocação.

“É importante salientar que, do ponto de vista macroeconômico, um ajuste para baixo dos salários é preferível a um ajuste para baixo do emprego”, sustenta Velecico. Uma redução de 1% na massa de salários, se baseada apenas na quantidade de empregos, exigiria o fechamento de 400 mil empregos formais.

A redução da massa via corte nos salários teria assim consequências menos dramáticas para as famílias de trabalhadores e efeitos comparativamente menos intensos sobre a atividade.

No lado mais negativo, entre abril e maio, a produção da indústria de manufaturas caiu 0,6%, com baixa de 1% para as vendas e recuo de 0,1% no setor de serviços, lembra o Iedi.

O tropeço na área de serviços levou o Depec a revisar sua previsão para o PIB do segundo trimestre, de estável para recuo de 0,3%. 

Via O Hoje | Lauro Veiga Filho

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