Indústria versus Comércio: crises bem diferentes

Por Flávio Fligenspan

Nestes tempos de crise generalizada da economia brasileira, nenhum ramo de atividade se salva. Quando se analisa o desempenho do PIB e dos setores que o compõem, seja pela ótica da oferta, seja pela da demanda, o que de melhor se pode dizer é que alguns setores começam a dar sinais de retomada; são sinais tímidos e incertos, não firmes, com meses ou trimestres com taxas positivas, por vezes sucedidos por períodos ainda de recuo.

A Indústria está um pouco à frente deste processo. Hoje já se pode dizer que pararam de se acumular taxas mensais negativas na produção, quando se examina a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE. Depois de uma longa série de quedas, o quadrimestre março-junho apresentou aumento da produção em todos os meses e julho teve uma variação negativa quase desprezível (-0,1%). A avaliação pelas Contas Nacionais, com informações trimestrais, mostrou no segundo trimestre deste ano, pela primeira vez, crescimento depois de cinco trimestres seguidos de quedas, desde o início de 2015.

Também pudera, não havia mais o que cair na Indústria brasileira. A crise atual é apenas mais um ato de um longo caminho de redução de atividades, queima de empregos, fechamento de empresas e transferência da produção para outros países, o que alimentou o debate já de mais de uma década sobre o tema da desindustrialização do País e suas consequências negativas. A Indústria de transformação brasileira é responsável hoje por menos de 10% do PIB, o que nos fez abrir mão de empregos formais qualificados, de salários médios maiores que nas atividades da Agropecuária, do Comércio e dos Serviços, de difusão de tecnologia e de arrecadação de tributos. Com a mais nova rodada de queda da produção, iniciada no começo de 2013, a Indústria sofreu muito, reduziu seu tamanho, dispensou pessoal e enxugou estoques; ficou ainda mais enxuta e quase não sobrou espaço para novas quedas. Nestes termos, a retomada atual é quase inevitável, mas há pouco a comemorar. Em julho de 2016, última informação disponível, a Indústria de transformação nacional produziu 17% menos do que em janeiro de 2013.

Se examinarmos o período recente, o Comércio brasileiro parece viver uma crise de magnitude semelhante à da Indústria; neste último ciclo de queda do volume de vendas, entre janeiro de 2014 e julho de 2016 o recuo foi de 20%. A partir da virada de 2014 para 2015, início da política recessiva deliberada, o que se viu foi uma combinação de restrição de crédito e alta dos juros com perda de massa de rendimentos da população – por redução do emprego e redução das remunerações médias – e aumento da inadimplência. Este momento encontrou boa parte das famílias com elevados comprometimentos da renda mensal com prestações contratadas no passado recente, desenhado-se com clareza o caminho da débâcle.

Ao contrário da Indústria, a situação atual do Comércio não é de retomada, pelo contrário, as vendas ainda vão cair antes de se abrir um novo ciclo de alta. E isto se justifica pelo mercado de trabalho, que não vai melhorar rapidamente e, portanto, não vai gerar aumento de massa de rendimentos nem confiança das famílias para contratação de novos planos de crediário. Se a política econômica ajudasse, com a queda dos juros, as projeções seriam mais otimistas, mas não é o caso. O que de melhor pode se esperar para o Comércio é uma suave retomada a partir de 2017, talvez do meio do ano para frente.

Apesar destas diferenças de desempenho presente e de projeções para o curto prazo, em que a Indústria parece estar numa posição melhor, é importante dizer que as crises da Indústria e do Comércio são bem diferentes. A da Indústria tem caráter histórico e estrutural, seu encolhimento vem de muito tempo e o estrago que já foi feito é bem mais difícil de recuperar. Na segunda metade dos anos 2000, quando se via a Indústria em queda constante e o Comércio vendendo cada vez mais, já estava clara a diferença. Entre tantos outros fatores, o real valorizado jogava contra a competitividade da Indústria nacional e a favor da importação de bens para serem vendidos com preços competitivos pelo Comércio.

O que poderia parecer um contrassenso, Comércio em alta e Indústria em queda, era até fácil de explicar. E não foram poucas as empresas com atividade manufatureira que logo entenderam o que estava se passando, deixaram de produzir e passaram a importar produtos concorrentes. Como estratégia de sobrevivência, para continuar a vender, colocaram suas marcas nestes produtos e usaram seus canais de distribuição. As empresas sobreviveram, mas perderam-se os empregos, a produção e o conhecimento acumulado. Ainda pior, desfizeram-se elos de cadeias produtivas construídos ao longo de décadas e que não são fáceis de se recuperar. Estas perdas é que conformam o caráter de crise estrutural da Indústria. O Comércio, por ser uma atividade menos complexa e com cadeias mais curtas, pode se recuperar com mais facilidade. Mas é um erro primário pensar que um vive sem o outro, porque a renda mais alta, do emprego mais qualificado e formal gerado na Indústria é que alimenta as vendas do Comércio e dos Serviços.

Flávio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.

Via SUL 21 | Link do artigo 

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *